Agile além da fazenda: os desafios e interesses de uma empresa

Esse foi o tema da minha palestra na trilha de Agile do TDC 2011.

Fazenda é uma metáfora para o ambiente físico de desenvolvimento de software.

No início do ano 2000, nós tínhamos um cenário desfavorável no desenvolvimento de Software. O Chaos Report demonstravam que os índices de sucesso em projetos eram por volta de 20%. Indefinições quanto a processos e ferramentas eram grandes, PMP lotavam as gerencias e o CMMI estava em alta.

Nesse conturbado cenário, um grande grupo de pessoas ligadas a desenvolvimento de software reuniram-se em Utah nos EUA e deram luz ao Manifesto Ágil de desenvolvimento de Software.

Com esse ato, métodos, metodologias, frameworks e práticas ligadas a “cultura ágil” foram impulsionadas. Começamos a por um pouco de ordem na nossa fazenda. Começou-se a mudar a cultura “fabril” na Fazenda. Pessoas começaram a ser valorizadas. Suas opiniões mais ouvidas, seus problemas, mais entendidos e isto foi bom.

Melhoramos mais nossas práticas e ferramentas, e o resultado foi bom. O Chaos Report de 2004 a 2008 mostrou os resultados destes esforços. Índices de sucesso e quase 40%. Porém foi neste período que aqueles tidos como “comprometidos” começaram a perder um pouco o foco.

A empolgação com este novo tratamento digno aos antes esculachados “Comprometidos” fez com que a soberba e orgulho saltassem além de limites seguros.

As responsabilidades aumentaram, e com isso uma turbulência veio. Começou-se uma briga entre aqueles denominados “Comprometidos”. Estas brigas envolviam discussões intermináveis sobre métodos e ferramentas. Discussões sobre certificações, balas de pratas, cases de sucesso,  nome, renome. E nisto, perdeu-se o foco mais ainda das novas dificuldades e desafios que emergiam.

Aí percebeu que tinha alguma coisa errada. A vaca poderia estar indo pro brejo.

Aquilo que fora antes disseminado como cultura, estava agora jogado ao mercado como “produto de caixinha”. Atitudes para melhoria, foi alterada para modelo econômico. E o pessoal da fazenda esqueceu um pouco do seu desafio, da sua paixão. Parou de olhar para aqueles que fazem parte do fluxo de entrega do seu fruto, perdeu um pouco de vista o pessoal da “Feira”, tanto vendedores quanto os compradores.

E o Chaos Report de 2009 foi implacável. Caímos de novo.

A Fazenda estava ficando triste, vazia…

É notável a evolução que o Manifesto Ágil trouxe. Mas o Manifesto em si, não é um fim, e sim um meio para atingir algo maior e melhor.

Aqui começa nossa reflexão: Quais são os desafios e interesses de nossas Empresas?

Uma Empresa tem um objetivo. Satisfazer uma necessidade que tenha valor a um Cliente. Ou então, gerar valor ao Cliente/Mercado, mesmo que este hoje nem saiba que precisa (vide Apple, Nintendo e outras empresas).

Dado que uma Empresa busca satisfazer a necessidade que um Cliente tem, ela também busca uma remuneração por seu esforço. Toda Empresa é feita para obter lucro. Esses em suma são os interesses de uma Empresa. Algumas porém dão mais valor ao Cliente enquanto outras dão mais valor para o Lucro, mas isto é outra história.

Com estes interesses em mente, uma Empresa tem o desafio de tentar gerar o produto de maneira menos custosa, mais rápida e com diferencial. Perceba que até este ponto, não é interesse nem desafio de uma Empresa “fazer Agile” ou “ser Agile”.

Agile é um dos vários meios que uma Empresa utilizará para poder atingir seus interesses. E o desafio da empresa não deve ser de “fazer o melhor Agile possível” pois, você pode afirmar que utilizar “Agile” além dos limites da Fazenda trará benefícios?

É obvio que a mudança da cultura na Fazenda traz benefícios, mais tenha em mente que uma Empresa busca satisfazer um cliente. A Fazenda faz parte de um meio ambiente muito maior. E é aqui que muitos ainda erram. Tentar levar SCRUM para o setor de Vendas da Empresa, pode não ser uma boa ideia. Ao mesmo tempo que quando buscamos trazer todos os envolvidos no projeto de um Produto para uma reunião, pensasse sempre em trazer um Cliente. Mas pare para pensar: O setor de Vendas não está envolvido no Produto? Como um vendedor pode vender um produto cujo ele não conhece e não ve crescer? E geralmente, você tem alguém de Vendas nas suas reuniões do Produto?

E expanda este pensamento. O pessoal do Suporte participa das reuniões? Pessoal de Treinamento ao Cliente? Implantadores?

A nossa visão na Fazenda ainda é uma visão de “Projeto”, enquanto o desafio de uma Empresa é fazer e entregar “Produto” (obviamente com valor maximizado ao Cliente).

Enquanto estivermos focado em fazer o “melhor Agile” será difícil expandirmos nossos horizontes e realmente trazer melhorias sistêmicas para toda a Empresa.

O Pensamento Enxuto (Lean Thinking) vem se apresentando como uma das ferramentas que auxilia muito nessa expansão da visão e geração de comprometimento. Ter uma Visão do Seu Fluxo de Valor e dar visibilidade a este Fluxo são iniciativas simples que podem ser feitas.

Temos muito para melhorar, e isto é bom para quem realmente busca tanto uma Fazenda melhor, quanto um ecossistema inteiro melhor.

Link para os slides da apresentação no TDC 2011.

Gostaria de agradecer a todos que ficaram e participaram da minha Palestra, que na verdade, foi uma continuação do Painel realizado no TDC. Foi realmente muito divertido e gratificante.